2 de outubro de 2013

O mundo segundo os celtas

    Um povo religioso e com símbolos que ainda estão bastante presentes no ocultismo e nas religiões pagãs pós modernas como a Wicca, por exemplo. Para entendermos o significado do Halloween temos que, antes de tudo, adentrar na visão de mundo que os antigos celtas tinham. Só assim poderemos realmente começar a entender o culto conhecido entre eles como Sanhaim. 

OS TRÊS REINOS


O Triskelion representa essa divisão do mundo em três partes. O número três para os antigos celtas
era tido como sagrado, desse modo, abrangendo sua mitologia principalmente a divisão do mundo
em três partes: Céu, Terra e Inferno. Na mitologia Viking esses três níveis são chamados respectivamente
de Asgard, Midgard e Hell.


    Dois símbolos do celtismo merecem nosso destaque pela sua interpretação do mundo. Para os povos nórdicos (incluindo aí os Vikings), a realidade era dividida em três reinos distintos, mas de certa forma conectados. Assim como as religiões judaico-cristãs entendiam o mundo desta forma dualista (céu e inferno), do mesmo modo os antigos europeus do norte. Separando esses reinos (e do mesmo modo, os sustentando) estava Yggdrasil, a Árvore Mãe.
   
Yggdrasil está presente em muitas culturas, principalmente na nórdica
onde esta árvore gigantesca sustenta o mundo ao mesmo tempo que o
divide em três níveis. Assim como Triskelion, essa árvore é um dos símbolos
presentes na mitologia celta.
Uma árvore gigantesca cujas raízes iam até as profundezas da Terra onde a luz não penetrava o que, no entanto, não queria dizer que era vazio. Nas raízes de Yggdrasil estava Hell, o mundo dos mortos e equivalente ao inferno na crença judaico-cristã. Era para lá que iam os mortais após partirem desta vida. A origem de Hell remonta à mitologia nórdica segundo a qual a filha mais nova do deus Loki com a giganta Angrborda teria sido banida por Odin para o submundo tendo o poder de controlá-lo. O nome do local é o nome da deusa. Tanto celtas quanto vikings tinham a mesma crença em Hell.
    No "meio" estava o mundo dos humanos e de outras criaturas, chamada de Midgard ou "Terra do Meio". É aqui que reside Jormungand, a Serpente Devoradora de Mundos nadando no mar que circunda o mundo. É de Midgard que pode-se ver o tronco e as folhas de Yggdrasil que chegam ao além onde residem os deuses, chamada de Asgard. Esse mundo triplo permeava as mitologias vikings e celtas o que mostra, de certa forma, a semelhança e influência entre elas.

OS FESTIVAIS (O ANO CELTA)

    Diferente da visão de ano linear que o ocidente possui, os celtas dividiam seu ano em festivais sendo oito ao todo, agrupados na chamada Roda do Ano.


    Os mais importantes do ano eram o Beltane em maio que representa o início da Primavera e o Sanhaim em outubro. Todavia, este último tem um destaque proeminente por encerrar o ano celta de uma forma bastante festiva. Com fogueiras e fantasiados, os celtas celebravam o fim do ano de forma bastante animada, embora o Sanhaim seja um pouco mais sombrio do que aparenta. 

O mês do Halloween




Depois de um longo tempo sem postar, retorno com uma série de posts a respeito de um feriado que não é tão comum no Brasil devido principalmente a nossa colonização portuguesa e a religião judaico-cristã. O dia 31 de outubro para os brasileiros não significa muito, mas para os países anglo-saxões, é o Halloween ou o Dia das Bruxas. A origem desse feriado, no entanto é incerto e os historiadores não entram em concesso. Acredito que os povos celtas de origem germânica sejam os primeiros a cultuar o que eles chamavam de Sanhaim, o dia em que os mortos podem caminhar outra vez pela terra. Até o dia 31 de outubro, pretendo compreender a origem desse feriado, principalmente seus desdobramentos. De uma festa pagã e bastante sombria para uma brincadeira de crianças. Então prepare seu saco de doces e conheça o Halloween.
Ano passado, quando comecei esta página, até escrevi a respeito, mas foi apenas um único post sem muito a enriquecer. Este ano quis fazer diferente e realmente entender o significado do Dia das Bruxas e como esse significado se perdeu.

14 de julho de 2013

14/09/52 a.C. - Batalha de Alésia



    A cena que se vê acima ocorreu aos 14 de setembro do ano 52 a.C. O cerco de Alésia foi o último confronto entre gauleses e romanos pelo controle da Gália. A Batalha de Alésia (ou por Alésia) como seria conhecido pela historiografia figura entre uma das mais heroicas do Mundo Antigo por confrontar, de fato, dois mundos totalmente diferentes: o "bárbaro" e o supostamente civilizado. A vitória em Alésia granjeou César e o levou, tanto à glória quanto ao desastre. Uma batalha que merece ser lembrada pelo heroísmo dos assim chamados "bárbaros".

    A Gália comportava as atuais França, Bélgica e Suíça e abrigava povos de diferentes etnias, dentre eles os celtas, chamados pelos romanos de gauleses. O que sabemos da Europa desse período vem de quem conquistou pessoalmente essa região. Em 50 a.C., Júlio César (100 a.C. - 44 a.C.) publica "De Bello Gallico" (Sobre as Guerras Gálicas), mais do que só um livro, era uma autopromoção como general e conquistador. Fora essa promoção, a obra é de valor histórico por nos dar uma descrição da Gália em quem a habitava. 

"A Galia está toda dividida em três partes, das quais uma é habitada pelos belgas, a outra pelos aquitanios, a terceira pelos que em sua língua deles se chamam celtas, na nossa gauleses. Diferem todos esses povos, uns dos outros, na língua, nos costumes, e nas leis."
  Júlio César era um general em ascensão. Depois de ter chegado ao cargo de Cônsul (um presidente, se usarmos de anacronismo), ele se une a dois outros políticos para conter a crise social pela qual Roma passava. No século I a.C.. a República Romana estava passando por problemas. Depois do violento e desastroso governo de Cornélio Sila (138 a.C. - 78 a.C.), Roma mergulhou em uma gerra civil sem precedentes. Para resolver este problema, criou-se o Triunvirato, ou seja, governo de três. Formado por Pompeu Magno (106 a.C. - 48 a.C.), Marco Licínio Crasso (115 a.C. - 53 a.C.) e Júlio César (100 a.C. - 44 a.C.), a união dos Três Poderes foi formada em 59 a.C. Tudo isso, para tentar resolver a crise social da República. O crescente território romano, para melhor ser administrado, foi dividido entre os membros.

César ficou com a região da
Gália, ao norte, conquistada
em 60 a.C.
Pompeu, um dos políticos
mais proeminentes de Roma
ficou com os regimentos da
Espanha (Hispânia para os romanos).

Crasso, ficou com os regimentos do Oriente. Já que não tinha tanto destaque político, o
comando dessas tropas poderiam lhe dar prestígio.
    César, então ficou com a Gália e decidiu assumir seu protetorado. No ano de 59 a.C., ele parte para aquela região afim de impor seu controle. Os celtas, povo que ali vivia (conhecido como gauleses pelos romanos) viviam de modo rústico, em cidades fortificadas, onde o poder e o governo eram feitos pelos Druidas, os sacerdotes locais. Não há reis na Gália, mas havia um líder, mesmo que submisso aos Druidas. Das muitas cidades da agora província romana, estava Gergóvia. E foi ali que, por volta do ano 72 a.C. nasceu Vercingetórix (Líder dos Grandes Guerreiros em celta). Assim César o descreve:

“Vercingetorix, filho de Celtillos, arverno, jovem de classe social muito elevada; seu pai obteve a primazia sobre toda a Gália e isso lhe valeu, por aspirar à realeza, ser assassinado por seu povo”

   
Estátua em homenagem ao líder gaulês próximo a atual cidade
de Alésia, que mesmo sob o cerco romano, resistiu por um mês.
Percebemos nesse fragmento de "De Bello Gallico" que César preferiu falar de seu caráter. Era um líder carismático, com certeza. Seu pai é assassinado em 60 a.C. por este ter tentado impor sua liderança e por "aspirar à realeza" como diz o governador romano. Vercingetórix se alia ao regimento romano em 56 a.C., mas ele queria algo muito maior: unir os povos da Gália contra o inimigo comum, o mal que vinha do sul, o Império Romano. Consegue a liderança de sua cidade natal após um golpe que derrubara o atual líder. É proclamado "rei" dos gauleses.
    Em 53 a.C., ele lidera uma revolta contra César para expulsar os romanos. Após uma série de derrotas, ele se fecha junto com seu contingente em sua cidade natal onde, pela primeira vez, consegue uma vitória sobre Roma, mas foi uma vitória efêmera, pois Gergóvia foi conquistada após um banho de sangue o que obrigou os gauleses a baterem em retirada para o último reduto livre: Alésia.
    Em Alésia, César citiou os já exaustos combatentes gauleses até que eles desistissem da luta. Vercingetórix realmente acreditava na vitória e fala isso para os habitantes e para seus homens. Mas diante das barricadas e do cerco imposto por César, a coragem sumia. Depois de um mês, os gauleses decidem confrontar e termina com um verdadeiro massacre e após isso, o Rei dos Grandes Guerreiros decide se entregar para o bem de Alésia e seus habitantes. Na manhã de 14 de setembro de 52 a.C., Vercingetórix, sai da cidade a cavalo e vai até o acampamento romano montado próximo dali. O historiador francês Amaddé Thierry, baseado no que Plutarco e Dio Cássio escreveram, assim descreve a rendição do líder gaulês:

"Vercingetórix não esperou que os centuriões romanos o arrastassem de pés e punhos atados até os joelhos de César. Montando um cavalo ajaezado como para um dia de batalha, vestindo ele próprio sua mais rica armadura, saiu da cidade e atravessou a galope a distância entre os dois acampamentos, até o lugar onde estava o procônsul. Fosse pois que a rapidez da corrida o levasse muito longe, fosse porque estivesse cumprindo apenas um cerimonial antiquado, ele girou em círculo em volta do tribunal, saltou do cavalo e tomando a espada, o dardo e o capacete, lançou-os aos pés do romano, sem pronunciar uma palavra"

    Foi uma rendição heroica de um líder orgulhoso, mas que escolheu a própria morte a perder Alésia, ou os seus habitantes. Vercingetórix e seu ato impressionaram até mesmo César, que não deixou de tecer elogios ao "bárbaro". A Batalha de Alésia é importante para a historiografia pelas mais diversas razões. Foi uma das primeiras a possuir um sentimento de nacionalismo, "eu pertenço a essa terra", mesmo que o conceito de Nação nem sequer existisse naquela época. Vercingetórix conseguiu o que se achava impossível: unir a Gália sob um líder, mesmo que o destino desse líder tenha sido a morte.
    Para César, a vitória em Alésia o elevou a um status maior. Um herói romano que subjugou os bárbaros revoltosos o levaria, anos depois ao posto de Ditador, mas ao mesmo tempo, ao túmulo.
    Vercingetórix foi levado prisioneiro para Roma onde ficaria preso até 46 a.C. quando, às duas da tarde daquele ano, foi morto a mando de César. Morria o Líder dos Grandes Guerreiros, após conseguir um feito realmente extraordinário. Tornou-se uma lenda e seus atos refletiriam por toda a decadente República Romana e até no Império, inspirando revoltas parecidas e em alguns casos, vitoriosas. Para os dois, César e Vercingetórix, a morte foi o destino ao qual compartilharam juntos e a Batalha de Alésia entrou para a história como o primeiro movimento nacionalista da Europa Ocidental.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CÉSAR, Júlio. De Bello Gallico. http://www.ricardocosta.com/textos. Página visitada em 14/07/2013.

THIERRY, Amédée. Histoire des Gaulois, despuis les temps les plus reculés jusqu'à l'entière soumission de la Gaule à la Domination Romaine.: A la Librairie Parisienne et Étrangere, 1828. Página visitada em 13/07/2013.



4 de julho de 2013

04/07/1187 - Batalha de Hattin

    Domingo, 4 de julho de 1187. Foi a primeira vez que a perda de Jerusalém representou tanto para os cristãos desde a posse pelos muçulmanos no século VII. O que foi a Batalha de Hattin que levou os cristãos a perderem a Terra Santa em uma data e em dia tão simbólico (domingo, o Dia do Senhor)? Para entender esse conflito medieval, precisamos compreender algumas situações anteriores.
   
Representação da Batalha de Hattin em manuscrito
medieval do século XI.
Jerusalém, a cidade três vezes santa (cristãos, judeus e muçulmanos) havia sido conquistada pelos turcos seljúcidas em 1078, estes convertidos ao islamismo. A cidade até então aberta a todas as crenças monoteístas foi fechada, mais que isso, os peregrinos que seguiam para lá eram duramente reprimidos. Originalmente, a Terra Santa havia sido tomada dos cristãos pelos seguidores do Islã em 638, mas ainda assim, as peregrinações eram permitidas. O quadro viria a mudar quando os turcos tomam a cidade no século X.
    A passagem dos peregrinos, obrigatoriamente passava por Constantinopla para então seguir para a Terra Santa e essa entrada e saída de pessoas dava certo lucro a então capital do Império Romano do Oriente. Quando ela é fechada, o então rei de Constantinopla, Aleixo Comneno (1056 - 1118) pede ajuda ao Papa. Por que? Bem, salvar os cristãos massacrados pelos turcos estava nas intenções dele, mas a economia da cidade também, então, o pedido de Aleixo tem duas proposições, tanto religiosa quanto política. O Papa Urbano VII atende o pedido e em 1095 convoca um Concílio em Clermont, o pontapé inicial para as Cruzadas.
    A historiografia hoje leva em conta os dois aspectos desses movimentos militares: o religioso e o político. Religioso porque o Papa queria reaver as duas igrejas, separadas desde 1054 pelo Grande Cisma e político porque, de certa forma, mercadores, comerciantes e até os próprios cruzados viam algo de maior nesses movimentos. De fato, as Cruzadas abriram caminho para o Renascimento Comercial e Urbano dos séculos XII e XIII, mesmo que sua intenção inicial (reaver a Terra Santa) tenha falhado enormemente.
   
A lepra de Balduíno IV começou a se manifestar ainda
na adolescência. Nesta iluminaria, Guilherme de Tiro
descobre a doença quando o futuro rei, brincando
com outros garotos, não sentia dor quando era ferido.
A Batalha de Hattin se desenrola nos anos finais da Segunda Cruzada, mas precisamos voltar cerca de dois anos antes. O rei de Jerusalém, Balduíno IV morre em março de 1185 aos 22 anos de lepra. Esse rei, cognominado "O Leproso" foi um dos grandes nomes da cristandade medieval. Tentou a todo custo evitar um confronto direto contra Saladino, sultão do Egito através da diplomacia. Sua morte, no entanto, levou o Reino de Jerusalém ao confronto. Os motivos são os mais variados, mas podemos levar em conta a coroação de Guy de Lusingan (1150 - 1194) e os ataques de Reinaldo de Chântillon (cerca de 1125 - 1187) a caravanas muçulmanas.
    O confronto se inicia aos 4 de julho de 1187, um domingo opondo cristãos e muçulmanos nos Cornos de Hattin, próximo ao lago Tiberíades. Não temos registros das baixas, mas os exércitos de Saladino envolviam quase 70 mil homens tendo 100 de diferença no lado cristão. A batalha foi desastrosa para o Reino de Jerusalém sendo retomado pelos muçulmanos. Para o lado perdedor, foram massacrados. Reinaldo de Chântillon foi decapitado pelas tropas de Saladino, como nos escreve  Imad ad-Din al-Isfahani, um cronista e historiador islâmico:

Saladino convidou o rei [Guy] a sentar-se ao seu lado, e quando Arnat [Reinaldo] por sua vez entrou, sentou-o ao lado do seu rei e lembrou-o das suas más acções. "Quantas vezes vós fizestes uma promessa e a violastes? Quantas vezes vós assinastes acordos que nunca respeitastes?" Reinaldo respondeu através de um tradutor: "Os reis sempre agiram assim. Eu não fiz nada mais."
Durante isto, o rei Guy arquejava com sede, a sua cabeça balançando como se estivesse ébrio, o seu rosto traindo grande medo. Saladino disse-lhe palavras tranquilizadoras, e mandou trazer água fresca, que lhe ofereceu. O rei bebeu, depois passou o restante a Reinaldo, que então saciou a sua sede. O sultão então disse a Guy: "Não pedistes permissão antes de lhe dardes água. Deste modo, não sou obrigado a conceder-lhe misericórdia."
Depois de pronunciar estas palavras, o sultão sorriu, montou no seu cavalo e saiu, deixando os cativos em terror. Supervisionou o regresso das tropas e depois voltou à sua tenda. Ordenou que lhe trouxessem Reinaldo, depois avançou sobre ele, de espada em punho, e atingiu-o entre o pescoço e a omoplata.
Quando Reinaldo caiu, cortou-lhe a cabeça e arrastou o corpo pelos pés até ao rei, que começou a tremer. Vendo-o assim perturbado, Saladino lhe disse em um tom tranquilizador: "Este homem só foi morto por causa da sua maleficência e perfídia".
Execução de Reinaldo de Chântillon em manuscrito
de "História" de Guilherme de Tiro.
    Guy fora poupado, mas o Reino de Jerusalém cai sob o jugo dos exércitos de Saladino. A sequencia da morte de Reinaldo ficou imortalizada no filme "Cruzada" do diretor Ridley Scoot de 2005.  A Batalha de Hattin foi uma preparação errada por parte de Guy. Os exércitos não poderiam se afastar da água e Saladino sabia disso, bloqueando todos os acessos a ela aos cristãos que foram derrotados, mais pela debilidade do que pela guerra. 
    Seguiu-se a isso a Cruzada dos Reis, visando recuperar mais uma vez a Terra Santa, mas não deu em nada. Hattin foi a primeira vez que uma batalha representou tanto para os exércitos cristãos, desde a perda de Jerusalém. Seus reflexos ainda estão entre nós, principalmente nas relações entre cristãos e muçulmanos, cujas raízes remontam ao século XII. Nada na História é esquecido, apenas adaptado!

29 de abril de 2013

Uma reflexão...

   
Chegamos ao fim do mês e dos posts referentes à primeira parte da História do Brasil. Neste último, vamos fazer uma pequena reflexão sobre os 513 anos de nossa história. O que podemos tirar deles? Nos últimos anos nosso país saiu de um estado de carência para um de destaque. A história do Brasil é de percalços, atrasos, processos e retrocessos, podemos olhar para o passado e entender o presente. E o que o presente nos mostra? Que ainda temos muito a crescer, mas isso tudo começou, não quando os portugueses desembarcaram aqui, mas bem antes. Os povos indígenas quase sempre são postos de lado na dinâmica da História. Francisco Adolfo de Varnhagen, nosso primeiro historiador, faz um relato de cima para baixo, dando descrédito à contribuição indígena (a do negro ele quase não cita), mas esses povos deram sua contribuição e ela foi gigantesca. Mais do que só o aspecto cultural, índios e negros constituíram nossa formação como povo brasileiro.
A mobilização indígena foi duramente reprimida pela PM. Essa imagem de um
índio praticamente sendo pisoteado correu o mundo.
    Quanto aos índios, nas comemorações de 500 anos do "descobrimento" do Brasil, eles não participaram das solenidades, na verdade, eles foram rechaçados. Nos manuais escolares, até bem pouco tempo atrás, não constava a cultura ou a sociedade dos povos indígenas, mas atualmente não só a indígena, mas a cultura afrodescendente. Isso significa que que o pensamento a respeito de sociedades pré-cabralinas está mudando, a visão eurocêntrica está mudando a cada dia. O que esperar do futuro? A resposta está no passado. Nesses 513 anos crescemos vertiginosamente, superamos crises, aprendemos com nosso passado, a respeitar nossas raízes. Estamos prontos para se fixar no futuro? Bem, isso só o tempo nos dirá, mas já conseguimos muito. O que virá... está em nossas mãos.
   

24 de abril de 2013

Brasil Colonial - o sentido da colonização

 
A economia brasileira teve seus percalços até chegar aos dias
de hoje.
Em que sentido um país "se apossa" de outro? Os motivos são variados, mas a colonização só acontece me casos específicos. No caso do Brasil, no entanto, ela só aconteceu por que os portugueses não encontraram a exploração esperada. Vamos avaliar, de acordo com a historiografia brasileira, o que grandes autores como Caio Prado Júnior (1907 - 1990) e Roberto Simonsen (1889 - 1948) dizem a respeito  dos sentidos da colonização do Brasil pelos lusos.
Francisco Adolfo de Varnhagen,
nosso primeiro grande historiador.
    Quando o Brasil foi "encontrado" em 1500 os portugueses, de início, acharam que não passava de uma ilha, mas logo se deram conta que passava muito disso. Bom, o que fazer com uma terra, em primeiro momento, desconhecida em extensão e cujos recursos ainda não são reconhecíveis? A historiografia brasileira deu algumas respostas para essa pergunta. Desde os primeiros cronistas que aqui chegaram até historiadores de fato como Adolfo de Varnhagen (1816 - 1878) e seus contemporâneos tentaram responder a isso. Varnhagem fez o que chamamos de "história ao contrário", já que ele enaltecia os feitos portugueses e dava a eles a responsabilidade por terem colonizado o Brasil, por terem trazido a "civilização" a uma terra caótica habitada por selvagens.
 
Capistrano de Abreu foi um dos
primeiros a priorizar a cultura e a arte
além de dar destaque os índios e afro
descendentes como sendo responsáveis
por criar a nação brasileira.
  Capistrano de Abreu (1853 - 1927), outro grande nome de nossa historiografia, foi na contra-mão de seu antecessor e engrandeceu os feitos indígenas e colocou os afro-descendentes em seu devido lugar de destaque. Para Capistrano, nosso país era rico em cultura devido a junção dessas três raças: brancos, negros e índios. Mesmo que esses historiadores tenham sido os primeiros a se debruçar sobre a História do Brasil (Varnhagem foi de fato responsável pela compilação de nossa história), eles não se fixaram tanto na economia e sim, em questões sociais.
    É apenas por volta da década de 1930 que os historiadores brasileiros começam a se debruçar não só nos aspectos sociais, mas a dar um enfoque também na economia. Autores como Gilberto Freyre (1900 - 1987) e Caio Prado Júnior (1907 - 1990) deram sua contribuição à dinâmica econômica em nosso país. Mas para falar em colonização, vamos começar com um nome pouco citado, mas que foi de grande importância para os estudos sobre economia em nossa história: Roberto Simonsen (1889 - 1948).

OS CICLOS DA ECONOMIA

   
Engenho de Açúcar em gravura de Johannes Moritz Rugendas
Para Simonsen, a economia brasileira se deu em três ciclos. Para esse autor, a colonização só acontecia caso não se encontrasse a possibilidade de exploração. Os portugueses quando aqui desembarcaram não encontraram ouro ou pedras preciosas que bancasse sua economia baseada no mercantilismo. Assim sendo, de acordo com Simonsen, os portugueses de fato só partiram para a colonização quando de fato perceberam que não era possível explorar. Abandonar a terra, nunca, isso não passava pelas cabeças deles. Desse modo, trabalhar o local era o mais apropriado.
    Simonsen afirma que os três ciclos formam, basicamente, o início, o meio e o fim da "prosperidade" em nossa economia durante o período colonial:


  1. Ciclo do açúcar - começa a partir da Expedição de Martim Afonso de Sousa em 1531. O Engenho do Governador foi o primeiro da grande indústria açucareira que Portugal montaria na sua colônia. Nos anos que seguiram, a metrópole desenvolveria seu produto com maestria, sendo o Nordeste a região mais próspera em virtude do solo e do clima. O ciclo do açúcar durou cerca de meio século, do XVI ao XVII quando o comércio do açúcar começa a decair. Os motivos são vários, mas a concorrência com os holandeses é um dos mais importantes;
  2. A descoberta de ouro nas Minas Gerais no final do século XVII deu início a mais um ciclo em nossa economia. As minas deram fim a frustração dos portugueses com relação a possibilidade de encontrar metais preciosos em sua colônia. Os espanhóis estavam muito bem obrigado com suas colônias. As minas de Potosi foram "descobertas" em 1545 e renderam altos lucros à coroa espanhola. Terem encontrado as Minas Gerais foi um alívio para os portugueses, ouro enfim;
  3. Com o declínio do ouro, tem início outro ciclo em nossa economia. Este perduraria por todo o século XIX e seria um dos maiores marcos de nossa história: o do café. O chamado "Ouro Negro" perdurou por muitos anos em nossa economia, modernizando as formas de produção, mas ao mesmo tempo, tornando forte os senhores de engenho.
    Basicamente, para Simonsen, esses três ciclos são os pilares para a nossa colonização. Cada um ajudou a desenvolver nossa economia, nossa sociedade e a formação do povo brasileiro.

A METRÓPOLE E A COLÔNIA

    Para Caio Prado Júnior, a metrópole e a colônia sempre trocaram farpas. Ele e Simonsen concordam em alguns pontos como o fato de os portugueses terem colonizado apenas depois de perceberem que a exploração era, à primeira vista, impossível. No entanto, Prado Júnior afirma que, para o mercantilismo dar certo, Portugal impunha à sua Colônia certas regras. O que produzir e quanto produzir. 
    Caio Prado tentou entender o Brasil de seu tempo (anos 1940) baseado no passado. Tentou dar aos estudos históricos brasileiros um ar de modernidade inspirando no marxismo. É um dos grandes nomes de nossa historiografia.

22 de abril de 2013

Pindorama - 22 de abril de 1500

 
Uma nação que não prometia muito começava a se desenvolver nos idos de
1530
    Chegamos ao dia em que os portugueses desembarcam em terras tupiniquins. Foi o encontro de dois mundos que se mostrou desastroso em muitos aspectos para os nativos. Hoje, há 513 anos, chegava às terras conhecidas como Pindorama pelos nativos uma armada composta por 13 navios comandada por Pedro Álvares Cabral, um fidalgo que recebeu da Coroa de Portugal a tarefa de ir até as Índias e retornar com ouro, especiarias e novos entrepostos comerciais.
   
A rota parou em Cabo Verde e seguiu logo depois por uma rota alternativa, no caso, se afastando da costa africana. Uma nau comandada por Vasco de Ataíde desapareceu e mesmo com as buscas não puderam encontrá-la. A frota de Cabral seguiu em frente avistando terra aos 21 de abril. Um monte alto ao qual o Capitão chamou de "Monte Pascoal", o desembarque, no entanto, ocorreu apenas no dia seguinte. Aos 22 de abril daquele ano começava nossa história, segundo a historiografia ocidental, mas hoje em dia essa noção de "pré-história brasileira" que antes era desprezada começa a ser levada em conta.
    O termo descobrimento está caindo em desuso, já que quando se fala desse modo, despreza-se o povo que estava aqui antes da chegada européia. Nem descobrimento e muito menos achamento, mas uma invasão. Quando aqui chegaram, os estranhamentos começaram para ambos os lados: do ponto de vista europeu, aquele povo sem roupa, sem a importância de "cobrir suas vergonhas" foram tidos como "crianças grandes"; da parte indígena, pra que tanta roupa em um clima como o tropical.
    As primeiras medidas de colonização só aconteceriam 30 anos depois da chegada portuguesa em terras brasileiras. Até então, a Coroa se concentrou em explorar a madeira de cerne vermelho e troco rijo que era encontrado em abundância na costa. Em troca de bugigangas como espelhos e outros apetrechos comuns, os índios iam em busca dessa madeira e a traziam até os portugueses. A madeira seria usada para construção de navios e no tingimento de roupas para uma burguesia em ascensão.
    No aspecto demográfico, foi um desastre para os nativos. Não temos noção de quantos haviam aqui quando os portugueses desembarcaram, mas as estimativas mais exageradas afirmam que aqui existiam cerca de 20.000 nativos que pereceram com doenças europeias que hoje são comuns a nós como gripe e coqueluche. Mas para os índios foi desastroso, assim como a escravidão que mesmo após 1570 continuou acontecendo normalmente, principalmente nas Capitanias do Sul que não estavam atrelados ao modelo exportador, mas sim, na expansão para o interior. Chamavam os índios de "negros da terra".
 
A colonização portuguesa aconteceu apenas após 1530 quando D. João III decidiu instituir as Capitanias Hereditárias, que haviam funcionado perfeitamente bem na costa africana. Aqui, ele dividiu a terra em 15 lotes e entregou a terceiros para que esses a colonizassem e fizessem prosperar. Todavia, apenas duas delas surtiram efeito, as outras fracassaram enormemente devido as distâncias, a falta de interesse dos particulares em colonizá-la ou até mesmo hostilidade dos indígenas. D. João III decidiu, então, partir para a unificação, instituindo o Governo Geral em 1548.
     A colonização foi surtindo efeito aos poucos, com processos e retrocesso, mas a efetivação só aconteceria anos depois no século XVI após a expulsão dos holandeses. Nossa história, no entanto, não tem como marco inicial o desembarque de Cabral aos 22 de abril, ela deve ser abordada desde muito antes e hoje em dia, a contribuição indígena e posteriormente africana  está sendo respeitada em sua importância. Nascia uma nação que prometia muito e que mesmo aos percalços, conseguiu se desenvolver. Hoje, fazemos 513 anos de "existência".